segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mais história da nossa história

Olá galera!
Sábado , dia 27/06, à noitinha, resolvi dar uma chegada em Lagoa Santa para ver como estavam as coisas por lá. Como estava muito frio, alguns desanimaram e como sempre fui com a minha turminha com quem sempre posso contar para o que der e vier. Quatro gerações dentro do carro, D. Elza (mais do que nunca meu "amigo de fé e meu irmão camarada") , Mayra , João Vitor e eu; porta-malas cheio de cobertores e petiscos para o café da noite e almoço do domingo e pé na Estrada, sem correria, trânsito tranquilo.


Dessa vez nem ligamos o rádio porque mamãe começou a contar fatos de seu passado, e fomos ouvindo até o centro de Lagoa Santa; nem vimos o tempo passar; lembrei-me das histórias que vovô contava quando sentávamos em rodas em volta da fogueira que ele acendia para aquecer todo mundo. Até João Vitor ouviu atentamente o relato dos fatos que repasso para voces. Alguns ela presenciou, outros foram contados por vovó Aninha.

Nosso bisavô, conhecido como CHICO RIBEIRO, de quem ela não tem lembrança viva, era de família abastada, amorenado (não sei se era negro ou mulato), casado com TEREZA; tiveram aproximadamente 12 filhos, dentre eles o nosso avô José Dias Duarte e Donita, mais conhecida por Tidona de quem muitos de nós tem lembrança (que o diga Maria Helena, Marcinha, Neide, Lourdes, Fiota gente?) - quem tiver foto de Tidona aí manda prá gente colocar no Blog.
Eram chamados de "Os Ribeiro".
Mamãe comenta que Tidona era vaidosa, orgulhosa e se achava! Casou-se 7 vezes. Comprava os vestidos mais caros que podia e a criadagem que se virasse para lavá-los e passá-los.

Os Ribeiro eram donos de fazendas enormes, com casarões antigos no estilo do mostrado ao lado, num lugarejo conhecido como Macuco, distrito de Itabira, e além de muito dinheiro eram orgulhosos e exigentes com seus empregados. Ainda não consigo entender porque eles tinham escravos; (o que me intriga é o fato do sinhôzinho ser negro ou mestiço e ter escravos mas tia Helena também contava que realmente eles tinham escravos...).
O exibicionismo era tanto que eles faziam cigarros com notas de dinheiro no lugar da palha para afrontar os outros.

Prezavam a união da família , a disciplina, principalmente na hora das refeições onde todos tinham que estar reunidos. A mesa era farta e servida com talheres completos.

O mais hilário é que quando vovô e vovó Aninha se conheceram as famílias foram contra o relacionamento: a dela não queria porque ele era negro e a dele não queria de jeito nenhum porque ela era uma branquela pobre!
O fato é que eles se casaram e moraram por muito tempo em uma das fazendas de CHICO RIBEIRO, onde foram tendo filhos consecutivamente (Oliveiro, Zica, Nonô, Nenem, Geraldo, Helena, Nilo, Elza, Neguito e Vavá , não sei se nessa ordem.

Fato marcante ocorreu em certa ocasião, quando a família iria comparecer à importante baile na região e deram por falta do vestido que Tidona usaria na festa; diante da ira da sinhazinha Tidona, as criadas procuraram nos inúmeros quartos da fazenda e nada de achar o bendito; no auge do desespero uma criada foi acusada de ter roubado o vestido e sumido com ele. Tidona esperneou pediu punição para a criada que em prantos jurava não ter visto o tal vestido. CHICO RIBEIRO a acusou formalmente e a despediu sob a acusação de roubo.
A criada, sem ter para onde ir e jurando inocência profetizou: " Tem nada não, eu inocente e vou embora mas eu juro que essa terra há de secar e ocês vão perdê tudo o que têm por causa da injustiça que tão fazendo comigo que não tenho para onde ir".
Passado algum tempo, depois que a criada se foi, o vestido foi encontrado , pendurado em um dos quartos da fazenda todo passadinho e engomado e tudo ficou como se nada tivesse acontecido.
Pois é, depois desse fato, parece que a praga pegou mesmo.

A farra com mulheres, bebida, jogatina, descontrole, descuido com as terras e o descontrole total foram consumindo pouco a pouco com as posses dos Ribeiro. (Não sobrou nadica de nada para nós gente!).
Não sei como nem quando ele faleceu.

Mamãe só se recorda que mais tarde eles se mudaram do Macuco para ALIANÇA (hoje IPOEMA), distrito de Itabira. Nosso avô alugou uma casa para todos morarem e continuou trabalhando como tropeiro para manter a família.
Sá TERESA, a esposa de Chico, nossa bisavó, continuou morando com eles em Aliança, e mais tarde em Belo Horizonte onde vieram morar por volta de 1930 quando mamãe tinha aproximadamente 3 anos de idade (veja foto da rua Caetés nesta época). Manteve por muito tempo sua pose de madame, e já com a cabeça não "funcionando bem" dava ordens do tipo: " Vai buscar meu pito!" (quando queria fumar), Cadê meu dinheiro?
Eu acho legal demais resgatar esses fatos, mas as pessoas que poderiam passar essas lembranças para nós estão indo embora e levando com elas a nossa memória. Que pena!
Pesquisando sobre Itabira, no site http://www.vivaitabira.com.br/ , deixo, para finalizar, um trecho encontrado lá, dito por um morador que contém verdade e sabedoria:

"O depoimento de um fazendeiro da região do Macuco representa um importante alerta que bem avalia a urgente necessidade de proteção e preservação: Os mais novos têm a cabeça na cidade, não querem saber de roça, lidar com terra é como amansar burro dá muito trabalho. Só que hoje não se amansa burro como antigamente, se até burro tem direito a um bom tratamento, quem dirá a terra e as belezas que aí estão. Minha casa ainda estou mantendo, minha vida está aqui, quando virar o morro sei que meus filhos não vão manter, hoje o importante não é ser eterno, é ser moderno. (morador da região do Macuco, 83 anos)."

Um abraço a todos!
Continua nos próximos capítulos...

7 comentários:

alda disse...

Adorei, Solange! Interessante a estória, mas mais interessante é a sua redação. Parabéns!
É preciso documentar relatos como esses, pois os personagens estão indo, e vai chegar o dia em que a gente não vai ter mais a quem perguntar sobre nossas lembranças.
Beijos a Tia Elza, e diga a ela que tenho a maior admiração e respeito por ela.
Alda

Maria Helena disse...

Muito boa a matéria; parabéns, Solange. Continuem, porque Tia Elza tem muito a contar e isso pode virar livro.

SolJanuzi disse...

Obrigada Alda e Maria Helena pelos elogios. É bom saber que a estória está sendo narrada de modo interessante, apesar do texto ter ficado um pouco longo.
Continuem ligadas por favor.

NEIDE DIAS disse...

Solange,esta um barato continue temos que ativar o arquivo vivo alem de tia elza que e fiota,mas ela nao abre o bico,to esperando fiotinha.olha que coincidencia mamae era de itabira,ela deve ter conhecido papai nas fazendas,se tivesse feito como voce teriamos uma linda historia,pois acredite jja ouvimos falar que meu avo pai de mamae era turco e nao sabemos direito.oh,do

soraya disse...

Solange,

Esta mensagem ficou sensacional. Achei muito legal conhecer nossas oriegens. Adoro as histórias que mamãe nos conta. Tenho certeza que tem muito mais a ser descoberto. Resgatar nossas origens é perpetuar nossa memória para as futuras gerações.

Inclusive nós temos que pensar em escrever os momentos atuais, registrar as coisas boas que já passamos e estamos passando, entre a família para que no futuro nossos filhos possam contar para os seus filhos, ou seja, nossos netos e bisnetos o que fizemos de bom e importante.

Mais uma vez, Parabéns!!!

Soraya

Juliana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juliana disse...

Amei ler esta história, mamãe e tia Fiota sempre contam essa mesma história e amo ouvi-la acredito piamente que não existe futuro sem passado. Parabéns Sol estou amando seu blog!